Por que procuram entre os mortos aquele que está vivo?
Em minha sandice, quando penso em Jesus e os apóstolos, fico cogitando sobre essa singular amizade, calcada passo a passo entre mortais e o criador do universo. Quase me escorre a baba quando imagino a liderança magnética do Amor, a convergir tantas diferenças de temperamento.
Cá nas minhas abstrações, atribuo certa similitude do meu geniozinho complicado, por vezes iracundo, com o voluntarioso Simão Barjonas, a “pedra” vivificada pela Rocha. Pois como Pedro, muitas vezes sinto o afã de uma convicção “inabalável”: não, Mestre, eu jamais vou te negar! Eu não, pois seria capaz de morrer por ti! Nunca vou deixar de te amar!
Consternadamente, o desenrolar da história nós bem conhecemos... Envergonhado, atônito e contrito, ouço o galo cantar duas vezes. Perdão, Jesus; tu sabias! Como Pedro, volta e meia sou deparado com a fraqueza do meu caráter humano (somente Cristo, a reinar livre e plenamente, pode aferir força e constância suficientes em mim).
Disse Jesus: “se me amais, guardai os meus mandamentos.” Como nem sempre consigo guardá-los, nem sempre demonstro amor verdadeiro ao meu fiel Salvador. (Isso é uma tragédia, somente superada pela misericórdia do Pai, a despeito das minhas intermitentes mancadas.)
Estupendo e radiante paradoxo! As chagas do Cordeiro me curam, a morte na cruz me traz vida!
“Tudo está consumado.” Um rosto se inclina. O céu escurece, parecendo desabar. Silêncio avassalador até os confins da Terra.
Ainda hoje estive eu a reparar no cisco em olhos alheios, sem perceber a trave nos meus próprios. Como sou ridículo! Porém, disse-nos o Filho de Deus: “não julgueis, para que não sejais julgados.” Perdoa-me, rabi, pois faltou amor em minhas palavras (precipitadas, reconheço). E, principalmente, no meu coração.
Um corpo cansado finalmente sucumbe no madeiro. Morte violenta e acintosa. Ladeado por criminosos. Naquela época, os sacerdotes judaicos estavam muito contrariados com o domínio romano. Conjeturo o tamanho do dissabor desses religiosos ortodoxos, diante do paganismo da mitologia greco-romana. Deveriam estar com imensa indignação (uma revolta acumulada e reprimida pela força), burilada dia após dia pela heresia da “pax romana” em solo sagrado.
Eis que não um estrangeiro conquistador, mas alguém local, um zé-ninguém agindo não por armas, mas movido por um amor supranatural, então desafiava a validade da ordem teocrática dos judeus. Ah, não, isso já era demais! Não havia como tolerar tanto “desrespeito”. As legiões romanas não podiam ser repreendidas, mas um mero judeu da Galiléia, filho de carpinteiro?! (Parece que escuto o inconsciente coletivo da bancada hebraica: Chegou a hora da desforra, rapaziada!)
Queridos, calculem a fúria bestial, a brutalidade desferida como válvula de escape àquela “ovelha expiatória”. Toda raiva contida, involuntariamente, por um povo orgulhoso de sua cultura, sendo liberada – desde açoites e espancamentos, até culminar no sangue derramado na cruz – em uma vítima inerme, que teve a audácia de se intitular o Filho de Deus!
Não possuo recursos para descrever, com justiça, a amplitude dos suplícios aplicados ao único Inocente vivo (em meu lugar!). Ainda assim, lembro de Isaías 53.
Louvado seja Jesus Cristo, meu Redentor, Rei dos reis, Cordeiro do Senhor!
(ESTE TEXTO FOI ESCRITO PELA PASSAGEM DA SEXTA-FEIRA SANTA, DIA DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO.)
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