Era um guri. Alemãozinho, cabelos e olhos claros, bochechas brancas, algo meio atrapalhado. Novo, muito novo. Cinco, seis anos? Criaturinha ingênua, por alguns instantes deixada aos cuidados do mundo. Pela manhã, acordara radiante, abobalhado pela oportunidade de vestir a camiseta nova, presente de sua mãe (uma heroína anônima, abandonada pelo marido, professora humilhada pela sociedade, lutando sozinha para criar dois pobres coitados em um mundo cinza, num inverno que jamais chegou ao fim). Em segundos, tecido rasgado com violência, trapos sem valor nenhum. O rosto há pouco lavado, agora sangra. A exemplo dos seus joelhos e braços. Uma roda de três jovens divertindo-se com a surra aplicada, inadvertidamente, sem razão ou pretexto aparente. Maldade em seu estado bruto. Ninguém mais por perto. A brincadeira poderia durar horas, naquele terreno baldio. Eu estava quase desmaiando. Não aguentava mais apanhar.
Por alguns instantes, cessaram de chutar minha barriga. “Levanta, seu bost. Fica de pé se tu é macho. Vai chorar, menininha? Aaaaah, a menininha vai chorar, corre pra mamãe, seu porcaria. Vamos, bastardinho, levanta.”
E foi quando começaram a me cuspir. Encolhido, no chão empoeirado, como cachorro prestes a perder os sentidos. Não sei como, estava tonto e com dores, sem fôlego, e mesmo com os olhos fechados avistei um homem de túnica e sandálias. Parecia estar maltrapilho, como eu. Aproximou-se vagarosamente, enquanto meus espancadores ficaram parados, em silêncio. Abaixou-se , chegando bem perto. Sorriu, suavemente, olhando-me com ternura. Oh, quanta doçura havia naquele olhar! Com a sua mão direita, secou as lágrimas de um rostinho sujo e inchado.
Enfim, levantou-se. Olhou para trás, então com a severidade de um pai zangado.
-“Agora, é comigo.”
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