Dia frio, muito frio, como poucos do inverno gaúcho. Tarde cinza, sem qualquer indício de um solzinho. Eu estava em final de férias. Em um supermercado, meio de bobeira, algo pensativo (meio decepcionado pelo salário que, claro, não importa o quão bom e suficiente ele realmente seja, sempre “poderia ser melhor”...). Mas antes que alguma lamúria começasse a ser parida, lembrei de agradecer a Deus pela convalescença da minha avó de 96 anos. E reconheci como o Pai é bom e misericordioso. “Caramba, meu salário não é nenhuma fortuna, mas tá bom demais, Jesus! Obrigado, desculpa esse pequeno instante de ingratidão. Sou uma anta, mesmo...”
Alguns minutos se passaram, continuei meio reservado, a refletir “por osmose” um dia escuro e gelado.
Sem que eu tenha percebido, mentalmente comecei a cantarolar uma canção da Aline Barros. “É, até que é bonitinho esse louvor.” Nunca fui muito afeito a louvores em vocais femininos (identifico-me mais com estilos parecidos a Irmão Lázaro, André Valadão e Chris Duran).
Ao chegar em casa, tratei de deixar algumas compras na cozinha. Sem alguma explicação aparente, resolvi ligar o aparelho de som. Foi quando aquela música começou. AMADO DA MINH’ALMA.
Foi quando Jesus extravasou meu peito. Um nome tão doce e suave, uma seda luminosa em minha alma. Nada consegui pensar. Apenas dobrei os joelhos, ainda não sei se por ato voluntário. E o inexplicável aconteceu. Um homem de 40 anos, acostumado pelas lições da vida a ser duro, a quase não se permitir emoções. Alguém de uma infância terrível, colecionador de pequenas-tragédias. Um homem que pensou ter secado todas as suas lágrimas nas tristezas do passado. Esse espartano racional e muitas vezes cético. Chorando em soluços. De joelhos, no chão da cozinha, sem motivo plausível aos olhos do mundo. Estremecido, tomado por uma admiração incontida. Uma pequena poça de lágrimas restou abaixo da mesinha. Enquanto Deus ardia em minha face. Quase sem respirar. Sua Glória me sufoca e me extasia. Eu, tão pequeno e miserável, tão pequenino e imperfeito, tão feio e medíocre. Eu, tão mesquinho e hipócrita. Eu, tão mentiroso e imbecil. Servindo de casa para O CRIADOR DE CONSTELAÇÕES.
ABA, NÃO SAIA DE MIM, MAS NÃO FIQUE EM MIM, POIS NÃO NÃO TENHO FORÇAS PARA CONTER TEU AMOR! FICA, PAI, FICA, MAS NÃO ME ESMAGUE COM TODO ESSE CALOR, ESSA LUZ, ESSE AMOR, QUE NÃO SOU DIGNO, QUE NÃO SOU DIGNO, PAPAI!
(...)
Vinte minutos, não sei quanto tempo depois, quando o silêncio adentrou. Após uma avalanche sensorial em minha alma. Continuo a tremer. Agora sei. Agora tenho certeza. Eu matei Cristo. Pior, continuo a ser seu algoz, o cretino, o verme que assassina a Pureza numa cruz. Pois todos os dias, por minha causa, meu Pai se faz humano, frágil carne no madeiro. Por mim, ele se deixa mutilar na vergonha. Ele não grita. Ele não me xinga. Ele não me acusa. Ele apenas olha com um amor que me fere pelo constrangimento. (Agora entendo Pedro.) E me diz, numa voz que golpeia: EU TE AMO, MEU FILHINHO.
(...)
Santo, Santíssimo, não sou digno de pronunciar teu Nome. Por quê?! Por que Tu vens a mim, se nós sabemos que não valho nada, sou sujo e menor que um grão de areia?! Eu sou desonra aos teus anjos e santos. Por que vens a mim, meu Deus? Não me abandone, tenha clemência por mim, Senhor, não vá embora. Mas acalma minha alma, Pai, não consigo reter tanto Amor, Senhor Jeová. Elohi, El Shaddai, Emmanuel, Yeshua, piedade, Aba, piedade, Aba!
(...)
Meia hora. Talvez mais. Tento respirar normalmente. Arfante e com o rosto plenamente lavado por lágrimas. Tive o assombro -e o desejo implícito- de morrer esmagado pelo Amor. Não conseguia parar de chorar. Tive grande dificuldade respiratória. E uma alegria que me arrebatou em adoração. Se uma parte de mim percebia, racional e emocionalmente, a vergonha da minha existência diante da Perfeição, outra parte (esta, bem maior) era tomada por um contentamento inominável. Eu, um farrapo imundo, sendo purificado pela presença radiante do Altíssimo.
Este dia jamais será esquecido por um pecador insignificante ao olhos do mundo. O diaem que O Rei me visitou.
- E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis. (Apocalipse 21:5)
Este dia jamais será esquecido por um pecador insignificante ao olhos do mundo. O dia
- E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis. (Apocalipse 21:5)
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